Mais uma noite em claro. Uma merda de uma noite em claro sem conseguir cair no sono. Fico olhando para o teto e este parece se mover, como a tela de um imenso televisor fora de sintonia, com vários pontos cinzas girando em torno de um eixo que também gira em torno de outro eixo e daí pordiante. Olho para minha Marylin Monroe e minha Debbie Harry na parede, coloridas e impávidas. Elas me desdenham.
Toda a cerveja barata desse mundo já foi despejada pelas goelas secas da humanidade essa noite. Todas as carreiras já foram aspiradas. Todos os baseados já fumados. Os jornaleiros já estão prestes a distribuir toda aquela carga de notícias imundas que dão sentido à vidinha de boa parte da população. E meu cérebro dando voltas em torno do surrado travesseiro.
Levanto e vou até a janela. São poucas as luzes acesas. Talvez outras pessoas angustiadas sofrendo de insônia como eu. Ou uma discussão entre casais pela madrugada a dentro. Ou pessoas fazendo sexo, tentando esquecer alguma coisa. Escuto um ronco de moto deslizar a toda velocidade pelo asfalto. Volto para cama.
Tento fazer um exercício de meditação, aquietando a mente de qualquer pensamento. Mas o cérebro é uma máquina engraçada. Tem vida própria. Martelam a nossa cabeça o dia inteiro com tudo quanto é tipo de aborrecimento, até que nosso cérebro se acostuma e durante a noite ainda recebe o eco das marteladas.
As donas de casa, lavadeiras, camareiras, neste momento sonham com uma vida melhor, com muito luxo, uma fantasia qualquer igualzinha ao que assistiram no último capítulo da novela. Os vigilantes noturnos espreguiçam-se na madrugada pensando em alguma mulher que na certa não está pensando neles.
A porra da meditação não funciona. David Lynch tem razão; preciso de um professor para transcender e mergulhar na felicidade das águas profundas que ele tanto fala. Isso realmente não se aprende nos livros. Será que um dia consigo? Penso no grandes peixes a serem pegos nas pescas submarinas de meus sonhos.
Levanto, abro a geladeira e espio. Engulo um pedaço de pizza velho e frio. No momento em que a claridade da luz invade a cozinha, os pernilongos loucos pelo resto de cachaça que ficou no copo em cima da pia, saem desgovernados e bêbados para algum lugar. Madrugada abafada. Tomo um copo d'água.
Enquanto a manhã se aproxima, a angústia vai aumentando. Será mais um dia de carga pesada, de marteladas na cabeça. Mais um dia de pura luta e correria. De parecer feliz, de parecer satisfeito com os louros recebidos, com o dinheiro conquistado, com a generosidade do sistema capitalista para comigo; um dos poucos escolhidos. Parecer sempre sorridente e simpático com todos. Ignorar os pobres; "não é problema meu, nao é problema meu". Sofro, mas não demonstro. As pessoas apreciam os bons atores, não?
Pego um livro qualquer na estante do corredor e abro na página 62."Costuma haver na embriaguez do haxixe três fases bem fáceis de distinguir, e a observação dos primeiros sintomas da primeira fase nos novatos é bastante curiosa." Era o poema do haxixe, de Baudelaire. Esse cara era um doido mesmo, penso. Solto uma risadinha irônica e volto para cama.
Tento outra técnica, a de deitar em uma posição diferente da posição "insone" na cama. Não funciona. No cérebro continua o tum tum tum desenfreado dasmarteladas. No hospício todos os loucos dormem tranqüilamente, embriagados pela doce farmacologia prescrita pelos psiquiatras. O último bêbado andarilho já se deitou debaixo da marquise e o outro mendigo pipador de pedra continua alucinando imóvel ao seu lado. A velha senhora síndica do prédio já está de pé pilotando o fogão, esquentando alguma coisa, bocejando e ajeitando a camisola ensebada. Todos os padeiros já soltaram uma praga qualquer diante dos fornos que já começam a aquecer os pães que irão sustentar o bucho das pessoas, cujos intestinos produzirão a merda toda que entrará pelos canos, alimentará os ratos e será despejada nos rios e oceanos.
Faltando menos de uma hora para que eu tenha que realmente ACORDAR, consigo pegar no sono. Um sono breve, escorregadio e aflito. Mas ainda tive tempo para sonhar. Em meu sonho, entro naquela classe da faculdade e deparo com meu amigo Dom Ferdinando com as calças arriadas se masturbando. Todos os outros antigos colegas também estão se masturbando. Todos os meus amigos fazendo caretas e sussurrando de prazer, um de frente para o outro.
PIPIPIPI... PIPIPIPI... PIPIPI...
Toca o despertador. Salvo pelo gongo. Salvo? Acordo e vou rastejando até o banheiro. Sem expressão nenhuma, me olho no espelho e dou aquela coçada na bunda. A água quente do chuveiro cai sobre minhas costas e eu não consigo sentir nada. A água vai batendo em meu corpo, deslizando até ganhar o chão. As poças começam a se amontoar, vão se unindo e ganhando a direção do ralo. Tudo o que está podre em mim ganha a direção do ralo. Tombo a cabeça para o lado e bato com apalma da mão no lado oposto, tentando tirar um pouco da água que entrou nos ouvidos.
TUM TUM TUM ...
Recomeça a martelada.