terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Che versus Hamlet

Este post é sobre um filme e uma peça que você deve sair para assistir assim que puder. O filme só vai estrear a primeira parte em março e a segunda, em maio. A peça fica em cartaz em São Paulo no Teatro Faap até o carnaval, e não há previsão de reestréia em outro lugar, por enquanto.

Che é encarnado pelo melhor ator latino-americano da atualidade, Benício Del Toro. Nesta obra, ele está no nível máximo de excelência, verossímel à lá Daniel Day-Lewis.

A peça, protagonizada pelo melhor ator brasileiro da atualidade, Vagner Moura, num nível Sean Pean de intesidade e categoria na interpretação - mesmo com excessos de urros e perdigotos. Na minha opinião, no papel de sucessor ao trono de Rei da Dinamarca, se candidatou o cargo de Rei do Teatro Brasileiro, vago desde o falecimento do grande Paulo Autran.

Del Toro, no papel de Ernesto Guevara, em película dirigida pelo irrepreensível Steven Soderbergh foi O destaque da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Roteiro baseado na biografia definitiva escrita durante seis anos pelo obstinado jornalista Jon Lee Anderson que conta com trecho de diários do líder guerrilheiro. Que filmagem!

Hamlet mergulha em profunda psicologia. Che, agente transformador da sociologia.

O que ambos, Che e Hamlet têm em comum? São duas forças de caráter irrepreensíveis, fiéis aos seus princípios e cada qual com sua história de final trágico que já conhecemos antes do espetáculo/sessão começar.

Claro que um é personagem fictício e o outro foi homem de carne e osso. Mas o grande mérito de do criador do personagem foi moldar não um ideal de homem, mas um homem movido por seus ideais. Soderberg, por sua vez teve a perspicácia necessária de fazer do seu Che um herói movido por suas idéias, e não projetar uma idéia de herói a partir da foto famosa de Korda. Ali não tem Che de boina olhando para o infinito de cabelos esvoaçantes. Ali Che come o pão que o diabo amassou e pede por mais. Não é bonzinho, nem santo. É digno e a cima de tudo, falível, humano.

Vi os dois filmes (“Che – o argentino” e “Che – a guerrilha” – nos seus títulos em português) na sequência, totalizando 4h 30min.

Sai do cinema e teatro em com minha alma abalada e a mente perturbada.

"Hamlet" foi uma montagem deslumbrante, o diretor Aderbal Filho conseguiu conciliar um visual moderno e despojado sem perder a fidelidade ao texto original.

Quanto ao filme, ou melhor, os filmes, a Parte 1 mostra o percurso para a Revolução Cubana, a empreitada pela mata de Ernesto, Fidel Castro (impressionantemente vivido pelo ator mexicano Demián Bichir) e seu irmão Raúl (interpretado por Rodrigo Santoro), desde o primeiro contato entre o futuro ditador cubano e “o argentino” – como muitas vezes se referiam a Che (este nome mesmo, um apelido que ele ganhou justamente por seu país de origem), até o triunfo da revolução que tiraria Fulgencio Batista do poder (o roteiro elegantemente não mostra a chegada à Havana, mas conclui o primeiro filme com uma belíssima e emblemática cena no meio da estrada, a caminho da capital, na qual Che/Benicio diz apenas a palavra “increíble”.

Pois mesmo para quem sabe tudo o que vai acontecer, o brilho de Soderbergh e o carisma de Benicio – para não falar no estranho prazer de ver o outro ótimo ator brasileiro Rodrigo Santoro desfilando um impecável espanhol com sotaque cubano – não deixam ninguém se desconcentrar por um minuto. O filme tem um ritmo de suspense natural, e sutilmente incita a sua liberação de adrenalina, O modesto exército de guerrilheiros recrutado pelos líderes da revolução ao longo de suas marchas, vai nos ganhando com a mesma facilidade com que conquista a simpatia dos “campesinos” (os camponeses) pelo caminho – e vai também aumentando a expectativa e a excitação do público, a ponto de transformar a tomada da cidade da pacata Santa Clara (a última batalha antes da chegada a Havana) numa seqüência tão emocionante quanto uma boa cena de “Falcão Negro em perigo” – só que com muito menos recursos.

A segunda parte – embora seja sim mais arrastada, mais triste e, obviamente, menos triunfal que a primeira – tem de ser vista, não só para se compreender um pouco mais sobre essa figura tão fascinante que é Guevara, mas também como um exercício de reflexão sobre como as coisas funcionam (ou não funcionam mais…) neste mundo.

É bastante desconfortável perceber, por exemplo, que o “Che de Cuba” e o “Che da Bolívia” são, inevitavelmente, a mesma pessoa – um mesmo cara, com os mesmos ideais, a mesma determinação, e as mesmas convicções. Mas que todas as outras variáveis a sua volta, em breves oito anos, eram definitivamente outras. Assim, o mesmo herói que com extrema facilidade conquistava corações no final do anos 50, inutilmente buscava apoio de humildes bolivianos em 1967. A estratégia, a vontade, a obstinação, e mesmo os motivos que inspiravam Che, estavam lá nos dois momentos. Só que, da primeira vez, tudo deu incrivelmente certo. Da segunda, terrivelmente errado.

Benicio Del Toro está impecável nos dois retratos – nem exageradamente auto-vanglorioso da primeira vez (o que nos dá a medida exata de um Che que compreendia bem sua missão) nem patético além da conta na sua visão quixotesca da segunda. Seu mergulho nesse personagem crucial para a história do século 20 é tão intenso que, a certa altura, você como espectador até deixa de se admirar pela semelhança física conquistada pelo ator e passa simplesmente a acreditar que aquele que você vê na tela é o próprio Che. Para usar um clichê que a crítica americana adora, sua atuação é um triunfo.