caralho, essa tradução é péssima. de quem é?
Respondi em seguida:
é minha!
e completei:
mas se tu soubesses disso antes não daria tua opinião isenta e eu
queria uma crítica sincera.
é foda pra caralho traduzir poesia, fazer a passagem literal
para o português fica totalmente sem nexo e sem espírito.
e é impossível replicar todos os recursos de linguagem com 100% de fidelidade, então tem que se fazer um esforço complicado de ajustes pra chegar o mais próximo possível da idéia original.
dependendo do texto a tarefa é plenamente possível, mas neste não tive muito remédio.
ou tu farias melhor?
please, be my guest!
Dom Ferdinando replicou:
bem, pelo menos você conseguiu extrair de mim uma crítica honesta.
mas vamos lá:
1) essa poesia tem características peculiares que tornam mais difícil que o usual (que já é bem difícil) sua tradução, sendo elas a estrutura dos versos e a gramática completamente fora dos padrões usuais.
2) se fóssemos seguir os padrões clássicos da tradução de poesias, teríamos que observar ao menos alguns dos padrões abaixo:
a) estrutura
b) rima
c) métrica
d) sonoridade
e) linguagem
3) o importante quando observados esses aspectos são o quanto de influência eles exervem sobre a poesia. neste caso:
a) estrutura – o poema se divide em dois momentos distintos. um é mais distante, descritivo, usando sentenças curtas para analisar algo que se apresenta simplesmente como um fenômeno:
"i like my body when it is with your
body. It is so quite a new thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body."
a partir disso há uma mudança na construção dos versos que passam a ser mais longos, sincopados em vírgulas, com andamento alterado pela repetição de palavras e fluidez pautada pelo uso de aliterações, assonâncias (`slowly stroking the, shocking fuzz'), maior espaçamento entre os versos e reticências. é o momento em que o poeta se deixa envolver pelas sensações do que está descrevendo:
"i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh . . . . And eyes big Love-crumbs,
por fim, há o uso de versos rimados e metrificados para fazer uma declaração:
"and possibly i like the thrill
of under me you quite so new"
b) rima – o poema não tem rimas aparentes, exceto pelos dois últimos versos, mas tem assonâncias que se assemelham muito a rimas, só que internas. por exemplo:
"you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh . . . . And eyes big Love-crumbs"
repare como a letra "u" ecoa em "you", "fuzz" "your" "fur" e "fuzz" repare ainda o fonema "z" ecoando em "fuzz", "comes" e "crumbs". logo, é necessário criar artifícios sonoros parecidos para ser fiel ao poema.
c) métrica - só existe nos dois últimos versos, como recurso oratório para realçar uma declaração veemente que encerra o poema.
d) sonoridade – não há muitos recursos de som no poema, exceto pelas mudanças de ritmo e as assonâncias e aliterações citadas.
e) ritmo – se divide em três, como já mencionado.
f) linguagem – um aspecto muito importante. a linguagem é informal, mas nunca vulgar, popularesca ou infantilizada. o que é mais comum é realizar uma tradução literal do poema, usando as inúmeras possibilidades que surgem e filtrá-las dentro dos parâmetros de linguagem, fazendo depois um novo filtro usando os parâmetros acima.
4) agora vem a parte difícil: ser fiel, na tradução, aos recursos peculiares do poema – gramática irregular e estrutura dos versos. esse foi um grande desafio, por exemplo, dos tradutores da poesia modernista russa para o português. são versos que se sobrepõe, palavras dividas entre os versos, neologismos, não-observância da gramática tradicional.
5) enfim, se você quiser se aprofundar na questão das traduções sugiro, para os itens a – f a leitura de um livro chamado "o corvo e suas traduções". trata-se da análise de um poema ("the raven", do edgar a. poe) que tem milhares desses recursos de linguagem, métrica fora do usual, rimas internas, aliterações e assonâncias poderosas, ritmo marcado, etc.., através das traduções para o português feitas
por fernando pessoa, machado de assis e outros. lá você vê como esses diversos autores superaram os desafios da tradução. quanto aos recursos modernistas do poema, sugiro uma olhada nas traduções de augusto de campos, haroldo de campos e boris chnaiderman em "a poesia russa moderna".
mas gostei do desafio, e assim que tiver tempo vou tentar uma tradução minha, seguindo todo o blá, blá, blá que eu descrevi aqui.
E eu trepliquei:
Estava eu lendo um texto do tradutor José Paulo Paes,
onde ele diz que é perfeitamente possível
a tradução de poesia, mesmo afirmando a singularidade
do poema. Com o livro que tenho em mãos, do Paulo
Leminski, "La vie en close", digitei aqui algumas
poesias e fiz algumas considerações a esse respeito.
LIMITES AO LÉU
"words set to music" (Dante via Pound), "uma viagem ao
desconhecido" (Maiakóvski), "cernes e medulas" (Ezra
Pound), "a fala do infalável" (Goethe), "linguagem
voltada para a sua própria materialidade" (Jákobson),
"permanente hesitação entre som e sentido" (Paul
Valéry), "fundação do ser mediante a palavra"
"Heidegger), "a religião original da humanidade"
(Novalis), "as melhores palavras na melhor ordem"
(Coleridge), "emoção relembrada na tranqüilidade"
(Wordsworth), "ciência e paixão" (Alfred de Vigny),
"se faz com palavras, não com idéias" (Mallarmé),
"música que se faz com idéias" (Ricardo Reis/Fernando
Pessoa), "um fingimento deveras" (Fernando Pessoa),
"criticism of life" (Mathew Arnold), "palavra-coisa"
(Sartre), "linguagem em estado de pureza selvagem"
(Octavio Paz), "poetry is to inspire" (Bob Dylan),
"design de linguagem" (Décio Pignatari), "lo
impossible hecho possible" (García Lorca), "aquilo que
se perde na tradução" (Robert Frost), "a liberdade da
minha linguagem" (Paulo Leminski)..."
(pag. 10)
Como pode-se ver nesse poema-montagem, o próprio poeta
acredita que, na tradução de poesias, há apenas
perdas. Tanto é que, quando queria seus poemas em
outras línguas, ele mesmo os escrevia, como por
exemplo:
Believe it or not
This very if
Is everything you got
(pag. 153)
Provavelmente ele não quisesse ser traduzido, com medo
dessas perdas. Mas qual a função dos traidores, se não
invadir esses textos e poemas para que todos pudessem
ter acesso à beleza contida neles? E se não houvessem
traduzido Shakespeare, Poe, E. Dickinson, Walt
Whitman, para citar apenas alguns, muitos de nós não
teríamos tido contato com tão rica e vasta poesia. E
se o tradutor já leva fama tão ruim, o tradutor
depoesia é o mártir maior.
Outro exemplo:
OPERAÇÃO DE VISTA
De uma noite, vim.
Para uma noite, vamos,
uma rosa de Guimarãesnos
ramos de Graciliano.
Finnegans Wake à direita,
un coup de dés à esquerda,
que coisa pode ser feita
que não seja pura perda?
(pag. 19)
Mas antes de passarmos a pergunta que não quer calar,
é preciso definir o que são perdas, ganhos
e compensação.
Perda é tudo aquilo que fica ausente na tradução. Por
exemplo, se o texto original tem uma palavra de duplo
sentido, um trocadilho, e isso não aparece na
tradução, ocorreu uma perda, pois o texto traduzido
não terá preservado as características do original.
Ganho é o contrário. O tradutor consegue inserir no
texto aspectos que o deixam ainda mais expressivo que o
original.
E a compensação é quando há perda em algum aspecto e
ganho em outro, não faltando nem se criando aspectos novos
no texto.
FINALMENTE, A INDAGAÇÃO
Após toda essa análise a cima, qual é a sua opinião? É
possível equilibrar perdas e ganhos na medida certa
para que ocorra a devida compensação na tradução de
poesias? Além disso, será que é preciso ser poeta para
traduzir poesia? Ou basta possuir um excelente domínio
das línguas de partida e de chegada e o gosto pelo
verso?
ps: estou aguardando a sua versão.
Dom Ferdinando:
err... você quer a opinião sincera ou a de amigo com medo de magoar?
and I said back...
you can hurt me until whatever you like.
Dom Ferdinando:
(perdeu por W.O.)