
Eu estava lá, fui testemunha do episódio "Pixo da Bienal" e ainda estou digerindo tudo o que houve; é um misto de nojo com pena e simpatia. Tive a confirmação de que entretenimento nem sempre (ou quase nunca) é sinônimo de arte.
Depois de passear por toda a mostra (nada relevante artisticamente, apenas algumas diversões interativas e poucas realmente interessantes), estava eu no andar térreo, onde há algumas poltronas de espuma e várias telas LCDs. Então, tava eu lá me deliciando com video-reportagens do Glauber Rocha que eu nunca tinha visto antes. Fui teletransportado pros efeverscentes anos 70, aquele cara fantástico falando sobre a cultura brasileira produzida naquela época e sobre o fato de que o melhor dela estava sendo censurada e/ou pouco consumida; dando exemplos de fatos e citando pessoas, livros, peças e etc. Glauber clamava, quase desesperado, para que a cultura chegasse ao povo. De repente, gritos e correria. Voltei imediatamente para 2008 e na hora, me dei conta: Glauber perdeu. Ninguém o ouviu. Se ouviu, não deram importância e o resultado estava ali gritando na minha fuça, literalmente.
A Bienal, outrora milionária no orçamento e agora pobre na exposição, com seu andar vazio que inspira liberdades de pensamentos "incríveis" - "imagina uma festa aqui?"- sendo (bem) usada por uns quarenta moleques, excluídos, sem educação e sem noção.
Os seguranças agiram para contê-los e houve protestos de todos ao redor. A molecada desceu correndo sob aplausos do público, até que este ficou apreensivo quando quebraram as vidraças na saída. Ninguém entra, ninguém sai e um certo pânico coletivo se instala. Minha garota querendo ir embora, com medo da chapelaria ser saqueada.
Uma mina da "gangue" volta e tenta pegar um cartaz e escrever algo pra posar de vítima ao fotógrafo da Folha. Os seguranças a cercam, a agarram e tentam colocá-la para fora. A garota protestava aos berros: "sou artista, cê tá loco? me larga! olha aqui, ó, agredindo a artista!" Que dó! Dó porque ela acha que é artista e dó porque pediu para ser presa. A polícia finalmente a levou embora.
Daí me coloco a pensar sobre a domesticação dos grafiteiros que agora expõe em museus e galerias, na elevação dos trabalhos deles a categoria de arte (tal qual a moda e a música pop anteriormente) e a falta de verdade absoluta que há nisso. Todo um processo que os beneficia financeiramente e muita gente compra. Deixou de ser uma expressão urbana espontânea para ser só mais uma modalidade de "artes plásticas" - com resultados majoritariamente medíocres se analisados fora do "universo street".
Os pichadores, que mais pareciam ser uma torcida organizada mirim, protestavam do seu jeito infeliz. E eu, que tenho nojo da maneira como nosso povo é tratado, tenho pena de como eles são educados e tenho total simpatia por esses pequenos atos anárquicos que, mesmo que não mudam nada, mostram que ainda há alguma vontade de verbalizar insatisfação em alguma parcela da juventude pobre (só achei desnecessário o quebra-quebra de vidraças finalizando todo o ato).
Viver sem desafio é para imbecis, fora que é muito chato. O mesmo pode-se dizer dos artistas. A maioria entrega exatamente o que público quer. Jogar jogo ganho é moleza. Uma irritante perda de tempo. Não há esforço pela conquista. A recompensa é rasa, fútil. Fazer bem feito não é tudo, mas tudo tem quer ser motivado. Contrariar, instigar, chocar, causar espanto, dúvida, surpresa. Isso sim é atraente; sempre que os meios justificam os fins. Do contrário a arte é só bela, nada mais.
Talvez aqueles escritos pontiagudos das pichações, em si, não sejam arte. Mas o conjunto da obra pela maneira como eles se deram e o contexto em que eles estavam inseridos é, de longe, a coisa mais artística - a única que provocou reações diversas - de toda a Bienal. Na próxima, possivelmente vão cobrar entrada para excluirem os excluídos e, aí sim, será a "Bienal do Vazio".
Depois de passear por toda a mostra (nada relevante artisticamente, apenas algumas diversões interativas e poucas realmente interessantes), estava eu no andar térreo, onde há algumas poltronas de espuma e várias telas LCDs. Então, tava eu lá me deliciando com video-reportagens do Glauber Rocha que eu nunca tinha visto antes. Fui teletransportado pros efeverscentes anos 70, aquele cara fantástico falando sobre a cultura brasileira produzida naquela época e sobre o fato de que o melhor dela estava sendo censurada e/ou pouco consumida; dando exemplos de fatos e citando pessoas, livros, peças e etc. Glauber clamava, quase desesperado, para que a cultura chegasse ao povo. De repente, gritos e correria. Voltei imediatamente para 2008 e na hora, me dei conta: Glauber perdeu. Ninguém o ouviu. Se ouviu, não deram importância e o resultado estava ali gritando na minha fuça, literalmente.
A Bienal, outrora milionária no orçamento e agora pobre na exposição, com seu andar vazio que inspira liberdades de pensamentos "incríveis" - "imagina uma festa aqui?"- sendo (bem) usada por uns quarenta moleques, excluídos, sem educação e sem noção.
Os seguranças agiram para contê-los e houve protestos de todos ao redor. A molecada desceu correndo sob aplausos do público, até que este ficou apreensivo quando quebraram as vidraças na saída. Ninguém entra, ninguém sai e um certo pânico coletivo se instala. Minha garota querendo ir embora, com medo da chapelaria ser saqueada.
Uma mina da "gangue" volta e tenta pegar um cartaz e escrever algo pra posar de vítima ao fotógrafo da Folha. Os seguranças a cercam, a agarram e tentam colocá-la para fora. A garota protestava aos berros: "sou artista, cê tá loco? me larga! olha aqui, ó, agredindo a artista!" Que dó! Dó porque ela acha que é artista e dó porque pediu para ser presa. A polícia finalmente a levou embora.
Daí me coloco a pensar sobre a domesticação dos grafiteiros que agora expõe em museus e galerias, na elevação dos trabalhos deles a categoria de arte (tal qual a moda e a música pop anteriormente) e a falta de verdade absoluta que há nisso. Todo um processo que os beneficia financeiramente e muita gente compra. Deixou de ser uma expressão urbana espontânea para ser só mais uma modalidade de "artes plásticas" - com resultados majoritariamente medíocres se analisados fora do "universo street".
Os pichadores, que mais pareciam ser uma torcida organizada mirim, protestavam do seu jeito infeliz. E eu, que tenho nojo da maneira como nosso povo é tratado, tenho pena de como eles são educados e tenho total simpatia por esses pequenos atos anárquicos que, mesmo que não mudam nada, mostram que ainda há alguma vontade de verbalizar insatisfação em alguma parcela da juventude pobre (só achei desnecessário o quebra-quebra de vidraças finalizando todo o ato).
Viver sem desafio é para imbecis, fora que é muito chato. O mesmo pode-se dizer dos artistas. A maioria entrega exatamente o que público quer. Jogar jogo ganho é moleza. Uma irritante perda de tempo. Não há esforço pela conquista. A recompensa é rasa, fútil. Fazer bem feito não é tudo, mas tudo tem quer ser motivado. Contrariar, instigar, chocar, causar espanto, dúvida, surpresa. Isso sim é atraente; sempre que os meios justificam os fins. Do contrário a arte é só bela, nada mais.
Talvez aqueles escritos pontiagudos das pichações, em si, não sejam arte. Mas o conjunto da obra pela maneira como eles se deram e o contexto em que eles estavam inseridos é, de longe, a coisa mais artística - a única que provocou reações diversas - de toda a Bienal. Na próxima, possivelmente vão cobrar entrada para excluirem os excluídos e, aí sim, será a "Bienal do Vazio".