quarta-feira, 30 de julho de 2008

Trilogia de Quatro - I

A luz do abajur desliza sob a cúpula e mergulha em sua pele, iluminando precisamente o ponto em que permanece uma cicatriz do corte no pulso. Sentia-se uma idiota ainda. “Nenhum homem mereceria esse gostinho”. O passado recente ainda trazia sua marca. A consciência recobrada, o presente a instigava; voltara a pensar naquela proposta ouvida no dia anterior. “Será?” Sempre fantasiou em bancar a prostituta, apesar de considerar indigno sê-la de fato. Ele havia dito que só teria prazer com ela se tivesse que pagar. “Que mal há? Posso tirar uma chinfra.”

Se conheceram pela internet e nunca tinham se visto pessoalmente. Nada podia ser mais fantasiado, nada podia ser menos verdadeiro. Ele talvez nem fosse o cara daquela foto, pensava. Mas a adrenalina provocada pelo desconhecido mechia com sua cabeça. Queria correr o risco. Sentia não ter nada a perder.

Combinaram no ponto dos pontos, Rua Augusta. Lugar público, onde ela poderia desempenhar bem o seu papel. Tem as coxas e os antebraços bem alvos, a cara também. Pálida, como quem não encontra aonde ir. Meia arrastão e scarpim vermelho; era a senha de reconhecimento.

Na frente, a espera, o boteco semi-vazio e a TV ligada. Passa algo com futebol, não interessa – ela sonha em pé com seu “cliente”. De vez em quando, alguém de um carro acena. Ela ignora. Sabe para quem deve dar bola. Devagar, a mão escorrega-lhe para o sexo. Sonha com a mão do loiro de sunga que viu na foto enviada por e-mail.

Uma buzina tripla, era o sinal e lá estava o inconfundível fusca bicolor. O carro é pequeno demais para que se possa transar ali, pensa. Aproxima-se ofegante, o suor marca-lhe o rosto. Pequenos pingos se formam sobre a testa. "Se ao menos eu estivesse sóbria poderia anotar a placa do carro". Pensado isto pega a bolsa e as roupas sobre a cadeira de metal e entra apressada. É preciso saber agir, ainda que não saiba para onde ir.

O estômago queima dentro do corset. A maçaneta do carro escapa-lhe pela mão por estar engordurada, e de resto, o carro todo. Dentro, um albino nervoso.

“Oi.” Oi.” Ambos monossílábicos.

TO BE CONTINUED...